Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

3.9.06

Diretor acerta ao utilizar o realismo para reconstruir uma situação-limite


O que Paul Greengrass faz é no mínimo desconcertante. Ele aplica na ficção, sem escrúpulo, as técnicas cinematográficas consagradas pelo documentário.

Desde "Domingo Sangrento", que lhe deu um exagerado e precoce Urso de Ouro em Berlim, seus filmes são marcados pelo uso evidente da câmera na mão, pelas imagens propositalmente tremidas e pela recriação do "tempo real".

Suas obras acompanham determinado acontecimento de perto, intensamente, com câmera e montagem "estressadas".

Em "Domingo Sangrento", essa técnica foi aplaudida porque Greengrass trabalhava com a recriação de um fato histórico -o massacre que se seguiu a uma manifestação pelos direitos civis na Irlanda, em 1972-, o que lhe conferia uma suposta autoridade para fazer uso daquelas técnicas. Mas, aí, Greengrass foi chamado para fazer "A Supremacia Bourne", continuação de um filme de ação hollywoodiano radicalmente fantasioso, e recorreu exatamente ao mesmo estilo.

Greengrass manipula os signos de realidade no cinema para criar uma espécie de "realismo histérico". Mas, quando usa um mesmo registro em filmes tão diferentes -e, mais do que isso, exagera nesses registros-, termina revelando que eles são meras convenções, técnicas de gramática, e não formas mais autênticas de reprodução do real. É verdade que essa é uma desconstrução velada que leva Greengrass a um campo de trabalho perigoso: ao mesmo tempo em que evidencia artifícios, também pode reforçar a confusão entre imagem e real.

É difícil, porém, negar o domínio pleno que o cineasta alcança em "Vôo United 93". Aqui, seu "realismo histérico" está menos "histérico" e mais interessado em criar uma determinada experiência visual e sonora. Greengrass não recorre a flashbacks, recusa-se a escalar estrelas hollywoodianas e, ao contrário do que induz todo o discurso montado em torno do filme, não está interessado em falar de heróis.

Ao contrário, "Vôo United 93" fala de homens comuns envolvidos em uma situação fora do comum -tanto os que estavam dentro do avião como os que estava fora, tendo que controlar, com urgência, o caos criado em um mundo que precisa de ordem (o espaço aéreo). Nesse sentido, "Vôo United 93" é de impacto brutal, uma experiência cinematográfica como poucas.

Por Pedro Butcher (Folha de São Paulo)