Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.8.06

"A Prova" resolve tema árido com dignidade


Baseado na peça de David Auburn, premiada com o Pulitzer (que ganhou uma montagem brasileira estrelada por Andréa Beltrão), o filme "A Prova" tinha dois desafios principais a vencer já em sua origem. Primeiro, descolar-se da famosa matriz teatral, firmar-se como obra cinematográfica com personalidade própria. Depois, tornar atraente para um público amplo o universo da matemática, que serve de pano de fundo para a trama.

São tarefas que o filme cumpre com sobriedade, embora sem brilho, graças à direção segura de John Madden e da atuação precisa de Gwyneth Paltrow, a mesma dupla de "Shakespeare Apaixonado". Porém o grande trunfo do longa é o roteiro de Auburn, que escapa da teatralidade com o uso contínuo de flashbacks e cria diálogos inteligentes em torno dessa ciência.

Após a morte de Robert (Anthony Hopkins), um brilhante matemático que enlouqueceu no final da vida, sua filha Catherine (Paltrow) tenta provar à sua irmã Claire (Hope Davis) e ao estudante Hal (Jake Gyllenhall) que ela herdou o talento do pai para os números, mas não seu desequilíbrio mental. A questão vem à tona quando Hal descobre uma revolucionária prova de um problema matemático que julga ser obra de Robert, mas que Catherine garante ter sido feita por ela.

O tema central do filme não é o mundo dos cálculos, mas a delicada fronteira entre genialidade e loucura, o drama de pessoas com um universo interior muito rico, mas que nem sempre conseguem traduzir essa riqueza aos outros, como Robert e Catherine.

"A Prova" desenvolve com dignidade esse tema árido para os padrões hollywoodianos. Mas o conclui de maneira insatisfatória, recusando um final em aberto e insinuando uma solução romântica. Para um filme sobre pessoas tão originais, seu desfecho é bastante convencional.

Por Ricadro Calil - Guia da Folha