Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

29.4.05

Diretor filma perguntas que não têm respostas em "Ninguém Pode Saber"


Aconteceu há 16 anos, em Tóquio. A mídia tomou conhecimento do fato, e, de uma hora para outra, aquilo que ninguém havia visto passou a ser superexposto. Quatro crianças viviam num apartamento com sua mãe. Elas não tinham sido registradas, não iam à escola -eram invisíveis aos olhos da sociedade. Sua mãe, cada vez mais ausente, um dia partiu e não voltou mais. Durante algum tempo enviava dinheiro esporadicamente às crianças, mas depois não chegou mais nada. As crianças continuaram a viver da maneira que conseguiam, sem que ninguém se preocupasse. Até o dia em que uma delas morreu.

Por que essa história de família se deu dessa maneira? "Ninguém Pode Saber". Então, para fazer este filme, Hirokazu Kore-eda resolveu indagar: "Como?". Como foi possível que os dias passassem sem que os vizinhos se preocupassem? Como as crianças se organizaram para continuar clandestinas, para sobreviver?

"Quando foi descoberta a morte da garotinha, todo mundo acusou o irmão mais velho, [Akira, interpretado por Yuya Yagira, vencedor do prêmio de interpretação masculina no Festival de Cannes]. A polícia interrogou as crianças, mas elas defenderam seu irmão. Ele havia feito tudo o que podia para defender aquela célula familiar, e foi isso o que eu quis mostrar", diz o cineasta.

"Recriar seu cotidiano, filmar em detalhe o que elas devem ter vivido e sentido ao longo daqueles meses, com toda a dificuldade para se alimentar, se vestir, se manter limpas... Mostrar essas provações, mas sobretudo os momentos de felicidade. Não observar as crianças, mas estar com elas. Nesse ponto que começa a ficção. A história é verídica, mas eu usei as condições de vida reais para a busca da sensação."

"Ninguém Pode Saber" é uma metáfora de uma existência plena de promessas, mas cujo fim parece brusco demais. Como imaginar que essa vida possa terminar antes mesmo de serem dados os primeiros passos da idade adulta? Mais uma razão para aproveitar sua essência no instante presente.

Mas como? Em "Depois da Vida" (1998), mortos podem escolher, entre suas lembranças, o melhor momento de sua vida. Em seguida, tudo será feito para reconstituir com precisão esses instantes com as quais a pessoa irá adormecer para sempre.

Uma grande parte do tema mais profundo de "Ninguém Pode Saber" já estava em "Depois da Vida": o preço da vida não é determinado por ninguém além de nós.

Confrontados com a angústia de perguntas que não têm resposta, "ninguém pode saber", mas cabe a cada um de nós avaliar nosso prazer em viver. Aqui, para as crianças, se a vida terminasse de uma hora para outra, ela seria interrompida no calor dos irmãos e irmãs aconchegados para dormir juntos e enfrentar as coisas juntos.
Em "Ninguém Pode Saber", o diretor procura pela primeira vez superar as tentações da abstração e do esteticismo para apreender a espessura carnal de seus personagens. O filme deve muito a seus atores, a sua graça e sua gravidade, que o diretor soube respeitar, organizando as filmagens ao longo das estações, durante um ano. Sua fragilidade, sua cumplicidade, sua evolução, nada disso é fingido. Apenas não é verídica a situação que eles representam, e que remete a uma realidade. Que revela sua verdade, aquela que também revela a notícia do jornal: a dor de crescer.

Por Philippe Piazzo - Le Monde


8.4.05

Atriz colombiana repete no cinema humilhação real


Catalina Sandino Moreno interpreta jovem sem perspectivas que aceita transportar drogas


Certa vez, Catalina Sandino Moreno foi detida no aeroporto de Nova York. Ela estudava nos EUA havia um ano, mas precisou ir a Bogotá renovar o visto. Na volta, o visto de nada serviu: por cerca de uma hora e meia passou por um duro interrogatório, isolada em uma sala. Para a polícia tratava-se de mais uma jovem suspeita de estar carregando drogas empacotadas no próprio estômago (o que eles chamam de "mula").

Naquele momento, Moreno sentiu na carne o estigma de ser latino-americana e, sobretudo, colombiana. "Fui revistada e interrogada como se fosse culpada e estivesse escondendo algo. Sei que os policiais estavam apenas fazendo seu trabalho, mas foi uma situação humilhante."

Três anos depois, a atriz viveria exatamente a mesma cena, ficcionalmente. No filme "Maria Cheia de Graça", do diretor norte-americano Joshua Marston, ela interpreta uma garota colombiana que aceita trabalhar como "mula".

Mas por que fazer uma personagem que poderia reforçar estereótipos sobre a Colômbia depois de ter passado por uma situação como aquela -e ainda por cima dirigida por um estrangeiro?

"Não disse "sim" de imediato. Sei como o cinema hollywoodiano costuma retratar latinos e fui muito cautelosa. Quando me contaram a história, achei estranho. Só tive certeza da seriedade do projeto quando conversei com Joshua. Ele me contou o filme de forma apaixonante e me pareceu sensível, verdadeiro e tremendamente sério. Senti que não faria bobagem", conta a atriz, em entrevista à Folha, de Nova York.

O "sim" não foi motivo de arrependimento. Por seu trabalho em "Maria Cheia de Graça", ela ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2004 e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Algo que não passava pela cabeça daquela estudante de publicidade da classe média de Bogotá, que cultivava o sonho remoto de se tornar atriz.

Quando foi descoberta por um "olheiro" da produção do filme, em 2001, com apenas 20 anos, Moreno trabalhava em uma montagem amadora de "Acuerdo para Cambiar de Casa", da argentina Griselda Gambaro. "Paralelamente à faculdade de publicidade, fazia aulas em uma pequena escola de teatro, mas as oportunidades para atrizes na Colômbia não são muitas, então eu não alimentava muitas esperanças."

Tudo mudou com o filme. "Mais do que uma experiência de atriz, "Maria" foi uma experiência de vida. Joshua havia pesquisado durante cinco anos e tinha profundo conhecimento de como se dá o esquema das "mulas". Mas ele soube, sobretudo, entender o que se passa na cabeça de uma jovem sem perspectivas. Maria quer sobreviver a uma situação difícil e realizar seus desejos."

Moreno, agora com 24 anos, quer ela própria realizar seu desejo de ser atriz. Para isso se mudou para Nova York, onde tem aproveitado para fazer cursos e ir ao teatro. "Gosto dessa cidade por isso. Outro dia vi Jessica Lange em "The Glass Menagerie", de Tennessee Williams, na Broadway. Mas aqui também tenho a chance de assistir a dezenas de espetáculos alternativos."

Enquanto isso, ela também lê roteiros. A pilha que recebeu vem aumentando, principalmente depois da indicação ao Oscar. "Mas ainda não escolhi nada, quero ir devagar, ter cuidado."

Não está nos planos de Catalina Sandino Moreno se tornar uma atriz latina em Hollywood. Ela diz que seu modelo de carreira internacional não está em Sônia Braga, mas em Walter Salles. "Ele é capaz de fazer filmes em português, espanhol e inglês com o mesmo calor, mantendo o mesmo respeito pelo que filma. É o tipo de qualidade de trabalho que eu busco."

Mesmo dominando perfeitamente o inglês, ela gostaria que seu próximo filme fosse em espanhol. "É minha língua materna, o que faz diferença. Não precisa ser um filme hollywoodiano, acharia ótimo trabalhar com diretores argentinos, mexicanos, espanhóis. O importante é que tenha uma boa história para contar e um papel interessante para mim."

Por Pedro Butcher - Folha de São Paulo