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30.9.04
Paul Verhoeven filma sobre 2ª Guerra na Holanda
Diretor de "Instinto Selvagem" e "Robocop", cineasta costuma desnortear críticos
Dentro de pouco mais de um mês, Paul Verhoeven deverá iniciar a filmagem de "The Black Book" ("O Livro Negro"), em Haia, na Holanda. Após ter passado 17 anos em Hollywood, o cineasta holandês retorna ao seu país, com o objetivo de narrar o último ano da Segunda Guerra mundial, que foi o mais cruel para a Holanda. O cineasta tinha 7 anos em 1945. Ele conserva uma recordação vivaz dos bombardeios e da fome.
Este retorno às fontes coincide com a projeção da íntegra dos filmes de Paul Verhoeven na Cinémathèque. Trata-se de uma oportunidade única para discernir a coerência do percurso seguido pelo realizador, desde "Louca Paixão" até "Instinto Selvagem", ou seja, desde a provocação libertária dos anos 70 até a pornografia puritana hollywoodiana, e ainda para seguir a sua evolução desde a realização de um documentário sobre os fuzileiros da marinha holandesa, de 1965, até a de "Starship Troopers" ("Tropas Estelares", 1997), um filme de guerra adaptado da obra de um autor de ficção científica de extrema direita, Robert Heinlein.
Para descobrir o que se esconde por trás destes filmes, é melhor não contar com a ajuda do principal interessado: "Eu teria muitas dificuldades para definir o que está escondido por trás da música de Stravinsky", responde o cineasta.
"Tome um dos meus compatriotas, Vincent Van Gogh: se você desconhecesse a história da orelha cortada, qual percepção teria você de seu auto-retrato? O que emerge de um artista não é necessariamente uma representação de sua vida interior; talvez seja algo mais profundo, ou ainda mais superficial".
Portanto, o espetáculo de corpos que perdem a sua humanidade sob o efeito da doença ("Louca Paixão"), da guerra ("Conquista Sangrenta", 1985, "Tropas Estelares"), da tecnologia ("Robocop") ou do dinheiro ("Showgirls", 1995), a insistência obsessiva em forçar o espectador a olhar para a nudez, ou ainda as gozações iconoclastas da morte, de nada servem para quem pretende sondar o espírito e o coração de Paul Verhoeven.
O cineasta é reticente ao falar sobre sua vida, as suas duas carreiras, a holandesa e a americana, e sobre a sua volta para a mãe Europa.
Foi neste país que ele nasceu, pouco antes da Segunda Guerra mundial. Durante a sua infância, ele assiste a três ou quatro filmes por semana, "sobretudo filmes americanos, de faroeste e de gângsteres".
Na adolescência, as suas inclinações levam-no a se interessar pela pintura e a matemática. Em 1955, ele passa um ano num liceu francês, em Saint-Quentin. Lá, ele encontra um professor que lhe permite fazer uma descoberta formidável: o cinema é uma arte.
"Aos 15 anos, eu tinha acabado de descobrir o que eram os grandes artistas, Van Gogh, Hopper, Stravinsky. Com este professor, assistindo a filmes tais como "A Regra do Jogo", eu descobri que o cinema podia se alçar ao mesmo nível".
Após ter feito a sua aprendizagem participando da realização de filmes para a televisão (o que lhe permite conhecer aquele que se tornaria um dos seus atores prediletos, Rutger Hauer), Paul Verhoeven avança na sua carreira e realiza os seus primeiros longas-metragens. Em 1973, o segundo, "Louca Paixão", marca a crônica de escândalos do cinema da década, entre 'O Último Tango em Paris" e "Sweet Movie".
Depois da entrevista, Verhoeven deixou o seu hotel, rumo ao palais de Chaillot, onde ele apresenta a "prova do crime", para a noite de estréia da retrospectiva. "('Louca Paixão') é um filme muito realista", diz.
E de fato, esse amor louco que reúne uma pequena burguesa provinciana e um escultor boêmio de Amsterdã é ao mesmo temo naturalista e delirante. No final, a jovem mulher morre de um câncer, assim como em "Love Story", mas, dos dois filmes, o mais obsceno não é aquele que muitos acreditam ser.
"Eu optei por seguir carreira no cinema para representar o mundo tal como eu o vejo. A minha abordagem é profundamente holandesa, tão antiga como a nossa pintura. Eu tomo por base a aparência externa", diz, aproximando-se por uma vez da teoria. As polêmicas que foram provocadas pelos filmes que ele realizou na Holanda não passam de uma conseqüência indireta desta preocupação: "Eu sempre fiquei surpreso com o efeito que os meus filmes exercem sobre as pessoas".
Contudo, depois de um certo tempo, o efeito Verhoeven sobre a administração do cinema holandês revelou ser corrosivo. "Depois de 'Spetters' ["Sem Controle", 1980] --a crônica de vida de um grupo de motoqueiros, que causou espécie, na época, por causa de uma cena de estupro homossexual--, eu entendi que eu não poderia mais filmar na Holanda". O sistema de financiamento público que rege o cinema holandês passou a ser proibido para ele: "Os liberais de esquerda são ainda mais fascistas que os fascistas; eles são tão convencidos de estarem com a razão..."
Verhoeven realiza então um filme de grande espetáculo, "Conquista Sangrenta", no qual atuam sobretudo atores anglo-saxônicos. É um fracasso comercial, mas o filme é notável o suficiente para convencer o estúdio Orion a confiar-lhe a realização de "Robocop". "Naquela época, ainda havia responsáveis nos estúdios, tais como Arthur Krim, no estúdio Orion, que sabiam que é a pessoa que importa para um filme, é o realizador", lembra o cineasta.
Depois disso, veio o tempo das estrelas: Arnold Schwarzenegger ("Eu não compartilho todas as suas opções políticas, mas, como ator, ele é um dos mais cooperativos entre todos com os quais eu trabalhei"), com quem ele filma "Total Recall" ("O Vingador do Futuro", 1990), Michael Douglas, o herói desgraçado de "Instinto Selvagem", que aceita contracenar com uma atriz do "segundo escalão", Sharon Stone.
"Naquele momento, as coisas já haviam mudado; os produtores já diziam: 'É preciso encontrar a estrela, e depois o cineasta'. Mesmo assim, eu ainda mantinha uma certa liberdade".
Então, Paul Verhoeven passa a filmar pouco, cada vez menos, até "O Homem Sem Sombra" (2000), uma variação sobre o tema do homem invisível, que lhe deixou uma recordação amarga. "Eu jamais deveria ter passado dois anos da minha vida trabalhando neste filme. Eu me deixei seduzir pelo estúdio; eu aceitei fazer um filme no qual eu não acreditava, mesmo se os efeitos especiais são muito bonitos".
Agora, já faz quatro anos que "O Homem Sem Sombra" estreou. Verhoeven trabalhou muito num projeto sobre Jesus, um personagem histórico que o fascina (ele escreveu vários artigos para revistas de teologia), sobre o qual ele gostaria de fazer um filme.
"Havia três temas que me interessavam: Jesus, Hitler e as cruzadas, os quais eu achava que não interessariam a ninguém. E, de repente, esses três filmes acabam de ser feitos". E, a respeito de "A Paixão", de Mel Gibson, ele acrescenta: "Este não é um filme sobre Jesus, e sim um filme sobre as diversas maneiras de se torturar um homem".
Para sair deste impasse, ele acabou portanto de voltando novamente para a Europa. "Eu deveria filmar dentro de seis semanas, mas o financiamento ainda não foi fechado. É preciso obter dinheiro inglês para desbloquear o dinheiro alemão, comprometer-se a gastar uma parte dele na Grã-Bretanha e uma outra na Alemanha, de tal forma que não sobra nada para a filmagem", explica.
"Já, o sistema dos estúdios americanos é bem mais simples. De qualquer forma, eles têm o dinheiro; a questão é de saber se eles vão investir em você. Para "Instinto Selvagem", eles me disseram: 'O orçamento será de US$ 43 milhões [R$ 124,7 milhões]'. Mas eles poderiam muito bem ter me dado US$ 53 milhões; eles também tinham esse dinheiro".
Mas a fonte secou para o cineasta, que planeja daqui para frente articular co-produções européias para os seus próximos filmes, um dos quais será uma adaptação de um livro do autor de romances policiais sueco, Henning Mankell, e o outro uma adaptação das aventuras do detetive russo Eraste Fandorin.
Atualmente, Paul Verhoeven admite rever com prazer apenas dois de seus filmes, "Showgirls" --que foi desancado pela unanimidade da crítica americana-- e "Tropas Estelares". Adaptado de um romance de Robert Heinlein, o mais militarista dos autores de ficção científica americanos, este filme conta as aventuras sangrentas de um grupo de jovens alistados voluntários na luta da humanidade contra invasores que têm a aparência de gigantescos insetos.
Quando da sua estréia, em 1997, Stephen Hunter, do "Washington Post", escreveu: "Este não é um filme que defende o nazismo, e sim um filme que o toma como pressuposto, que é espiritualmente nazista, psicologicamente nazista". Enquanto isso, Roger Ebert, do "Chicago Sun-Times", estimava que, "se 'Guerra nas Estrelas' é humanista, então, 'Tropas Estelares' é totalitário".
Mas estas críticas não impediram o filme de obter um honesto sucesso comercial, faturando US$ 110 milhões (R$ 319 milhões) em receitas pelo mundo afora. Isso aconteceu do tempo do presidente Clinton, e, hoje, muitos comentaristas reconhecem a dimensão profética de "Tropas Estelares", que aparece como uma caricatura apenas exagerada da representação da guerra no Iraque tal como ela foi apresentada pelos meios de comunicação durante as primeiras semanas do conflito.
Verhoeven admite: "Para construir os personagens, nós nos inspiramos muito no Texas", explica.
Por Thomas Sotinel
posted by Marfil at 8:27 AM
26.9.04
SPOILER ESPECIAL: Perspectivas OSCAR 2005
"Diários de Motocicleta" muda a alma e o mundo
Filme conta a história de amor entre um homem e o seu continente
Na primavera de 1952, dois rapazes partiram de motocicleta numa viagem ambiciosa e errante que, eles esperavam, os levaria de Buenos Aires, Argentina, subindo pelo Chile e atravessando os Andes, até a Amazônia peruana. (Eles conseguiram, com certo atraso, mas a infeliz motocicleta, não.)
Sua viagem, por mais inspirada e audaciosa que tenha sido, poderia ter desvanecido na memória pessoal e na lenda familiar, apesar de os dois viajantes terem escrito relatos de suas aventuras. O mais velho, um bioquímico de 29 anos chamado Alberto Granado, ainda está vivo e aparece no final de "Diários de Motocicleta", a reconstrução emocionante e calorosa feita por Walter Salles dessa antiga jornada.
O companheiro de Granado era um estudante de medicina de 23 anos chamado Ernesto Guevara de la Serna, cuja carreira subseqüente como ídolo político, mártir revolucionário e ícone de camiseta --o Che!-- confere um brilho carismático e misterioso a sua vida anterior.
"É possível sentir nostalgia de um mundo que você não conheceu?", Ernesto se pergunta enquanto contempla as ruínas incas nas montanhas peruanas. O filme de Salles, uma empreitada tão ardente e séria quanto acabou sendo a de Ernesto, coloca uma pergunta semelhante.
Ao fazer o filme, o elenco e a equipe percorreram três vezes a rota de Granado e Guevara, tentando conectar-se não apenas com a paisagem variada e inóspita da América do Sul, mas também com as esperanças e as confusões de um tempo antigo: uma era anterior à revolução cubana, aos golpes militares e às guerras sujas das décadas de 1960 e 70, anterior ao renascimento democrático e às catástrofes econômicas que se seguiram.
Os cineastas não são tão ingênuos a ponto de supor que os velhos tempos foram mais simples ou inocentes que o presente. A sensação de vigor e possibilidade do filme vêm da inteligência visionária de seus heróis. Mas um motivo para explorar o passado é tentar redescobrir um sentido fugidio de possibilidade esquecida, e nas mãos de Salles o que poderia ter sido uma história esquematizada de conscientização política torna-se uma exploração lírica das sensações e percepções das quais surge um entendimento político do mundo.
O que "Diários de Motocicleta" capta, com surpreendente clareza e delicadeza, é a instigação do idealismo juvenil de Ernesto, e a gradual transformação de sua natureza apaixonada e literária em uma forma ainda imprecisa de comprometimento radical.
Ao optar por não seguir o curso posterior dessa paixão --para a Sierra Maestra, o Congo e as montanhas da Bolívia, onde Guevara encontrou seu final sangrento--, Salles corre o risco de ser acusado de idealizar seu tema.
É uma acusação justa, mas que não leva em conta a fidelidade do diretor a suas fontes literárias. Os diários de Guevara, descobertos em uma mochila muito depois de sua morte, foram publicados em 1993, e grande parte de seu apelo está no sentido de imediatismo que eles transmitem. Seu autor não sabia quem iria se tornar, mesmo quando os próprios cadernos dramatizam uma etapa crucial em sua evolução.
No início, em casa com sua família burguesa em Buenos Aires, Ernesto (Gael Garcia Bernal) não é o Che, mas "Fuser" --sensível, asmático e talvez um pouco superficial. Alberto (Rodrigo de la Serna), lascivo, roliço e gregário, cheio de conversa bem-humorada e fanfarrã, é o Falstaff do Príncipe Hal de Fuser.
Embora exista um objetivo válido no final de sua jornada --eles pretendem trabalhar em uma colônia de leprosos no Peru--, o propósito principal é o turismo, ao mesmo tempo bem e mal intencionado. Eles querem ver o máximo possível da América Latina --mais de 8 mil quilômetros em apenas alguns meses-- e também dormir com tantas beldades latino-americanas quantas caírem em suas ridículas cantadas.
Alberto pode ser um conquistador declarado, mas Bernal, com seus olhos mortiços e feições eqüinas, é o galã do filme. Embora no final Ernesto seja visto como uma figura quase sagrada, afastando-se das corrupções do mundo em direção a um objetivo maior, ele também é tratado como um rapaz perturbador e ansioso.
No início do filme, os viajantes param na cidade litorânea de Miramar para visitar a namorada de Ernesto, Chichina, cujos pais abastados claramente o reprovam, para não falar no rude Alberto (que rapidamente seduz a empregada da família). As cenas entre Ernesto e Chichina têm o delicioso desejo do fim da adolescência, um sentimento que permeia o filme mesmo quando ele se concentra em questões mais graves.
Às vezes "Diários de Motocicleta" avança como um filme de camaradas convencional, animado pelas trapalhadas mecânicas e brigas bem-humoradas de Ernesto e Alberto. Mas o filme, escrito por José Rivera, é na verdade uma história de amor em forma de diário de viagem.
O amor que ele narra não é menos profundo --nem menos excitante para os sentidos-- por não ocorrer entre duas pessoas, e sim entre uma pessoa e um continente. Apesar do desempenho inspirado e magnético de Bernal, o verdadeiro astro do filme é a própria América do Sul, revelada nas imagens verdes e enevoadas do cinegrafista Eric Gautier como uma terra de beleza pujante e enigmática.
No final do filme, depois da estada na colônia de leprosos que confirma seus nascentes impulsos igualitários e antiautoritários, Ernesto faz um brinde de aniversário, que também é seu primeiro discurso político.
Nele, evoca uma identidade pan-americana que transcende os limites arbitrários de país e raça. "Diários de Motocicleta", ao combinar os talentos de um diretor brasileiro e protagonistas do México (Bernal) e da Argentina (de la Serna), faz um sincero tributo a essa idéia. Na era do turismo em massa, ele também revive abertamente a idéia venerável e romântica de que a viagem pode ampliar a alma e até mudar o mundo.
Fonte: A. O. Scott - New York Times 24/09/04
posted by Marfil at 10:29 AM
21.9.04
SPOILER ESPECIAL: Perspectivas OSCAR 2005
Brasil indica "Olga" para vaga no Oscar 2005
.jpg) O longa-metragem "Olga", de Jayme Monjardim, foi escolhido hoje por uma comissão do Ministério da Cultura para concorrer a uma das cinco vagas do Oscar 2005 na categoria de melhor filme estrangeiro. A indicação será encaminhada à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Concorreram com "Olga" os filmes "Benjamim", de Monique Gardenberg; "Cazuza, o Tempo Não Pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho; "De Passagem", de Ricardo Elias; "Garrincha Estrela Solitária", de Milton Alencar Jr.; "Narradores de Javé", de Eliane Caffé; "O Outro Lado da Rua", de Marcos Bernstein; "Pelé Eterno", de Anibal Massaini Neto, e "Redentor", de Cláudio Torres.
O longa-metragem estreou no dia 20 de agosto com 263 cópias e foi exibido em 328 telas de todo o país --nos multiplex uma cópia é usada em mais de uma sala. "Olga" custou R$ 8,5 milhões. No primeiro final de semana, levou 385.968 espectadores aos cinemas. Este número garantiu ao filme o primeiro lugar do ranking de abertura de uma produção nacional neste ano. Em segundo lugar aparece "Cazuza - O Tempo Não Pára", com 294.194 espectadores.
Inspirado no livro de Fernando Morais, a produção conta a história da judia Olga Benário (1908-1942). Nascida em Munique em 1908, ela se tornou militante comunista na adolescência. Em 1934, foi designada por Moscou para proteger Luís Carlos Prestes durante sua volta ao Brasil, e os dois acabaram se apaixonando.
Em 1935, lideraram uma tentativa de revolução comunista, mas foram presos no Rio. No ano seguinte, grávida de sete meses, Olga foi deportada pelo governo de Getúlio Vargas para a Alemanha. Sua filha, Anita Leocádia, nasceu na prisão e aos 14 meses passou a ser criada pela mãe e a irmã de Prestes. Olga morreu em 1942 na câmara de gás de Bernburg.
Embora seja considerado um sucesso de público, o primeiro longa de Monjardim, conhecido por dirigir novelas de sucesso, como "O Clone" e "Terra Nostra", não agradou a crítica. Uma das críticas feitas ao filme é sua semelhança com a linguagem de TV --o grande uso de closes e da música para destacar a emoção das personagens.
Fizeram parte da comissão de seleção, responsável pela escolha, André Luiz Pompéia Sturm, Carla Camurati, José Geraldo Couto, Luiz Severiano Ribeiro Neto e Paulo Maurício Germany Caldas.
Concorreram à indicação os longas estreados em salas de exibição comercial entre 1º de outubro de 2003 e 30 de setembro de 2004.
Na enquete promovida por SPOILER, 44% dos internautas escolheram "Olga" como pretendente ideal a uma das indicações ao OSCAR de filme estrangeiro. "O Outro Lado da Rua" ficou em segundo com 33%.
posted by Marfil at 4:20 PM
17.9.04
Com exibição recusada por algumas salas, estréia "Cama de Gato"
.jpg) Três adolescentes típicos de classe média brasileira resolvem armar uma sacanagenzinha para cima da paquera de um deles. Enquanto o casal estiver quase transando no quarto, eis o plano, os outros dois amigos saem de dentro do armário para ver tudo, quem sabe tocar a menina sem que ela perceba ou, percebendo, tentar convencê-la a participar do ménage à quatre. Esse é o ponto de partida de "Cama de Gato", primeiro longa de Alexandre Stockler, que estréia hoje.
Tudo corre da pior maneira possível. Essa pior maneira possível é mostrada sem meios-termos, direta, chapada, insuportável, numa das cenas de estupro mais pesadas do cinema, que não deixa nada a dever à polêmica seqüência do francês "Irreversível", de Gaspar Noé (2002), e, em diversos aspectos, a supera em crueldade.
Primeiro porque enquanto o exemplar europeu distancia o espectador com a violência pela violência, o nacional o aproxima pela verossimilhança de uma brincadeira estúpida de garotos indo longe demais.
Segundo, e reside aí a força de "Cama de Gato", pela colagem de depoimentos de diversos adolescentes de verdade, não-atores que, entre cervejas, risadas e tragos de cigarro, vão construindo na vida real a plausibilidade do que era ficção, mostrando que, sim, tudo o que aconteceu ou vai acontecer é tão provável que o incrível é não ocorrer mais freqüentemente. É um trabalho de edição sutil, metódico e preciso que deve virar a marca fílmica deste talentoso diretor de teatro.
Há ainda o elenco, formado por Caio Blat, Rodrigo Bolzan e Cainan Baladez (o trio de amigos) e a corajosa Rennata Airoldi, que já havia mostrado seu valor na peça "Ka", do falecido Renato Cohen, todos muito bem. Esses são os méritos do filme em si.
Mas há ainda o valor político, extracinema, de "Cama de Gato". O longa digital com algumas inserções em celulóide cumpriu uma verdadeira epopéia para chegar às telas. Tudo começou com uma idéia bem-humorada de fazer a versão tupiniquim do Dogma 95, dos cineastas escandinavos, que nas mãos do jovem paulistano Stockler virou "T.R.A.U.M.A.", ou Tentativa de Realizar Algo de Urgente e Minimamente Audacioso.
Lançado o manifesto, etapas importantes da produção foram realizadas com o auxílio da internet, de uma maneira então pioneira.
Pronto o filme, houve o vendaval de recusas de festivais e, principalmente, de cinemas e cadeias de salas --por ser digital, diziam umas, devido ao conteúdo polêmico, afirmavam outras. Uma delas não tinha visto o mesmo problema ao exibir o filme de Noé (estupro em francês pode, em português pega mal). Stockler pagou por não baixar a cabeça, e só por isso já tem lugar garantido no combalido panteão do cinema independente do Brasil.
Panteão de resto formado por ele, Cláudio Assis (de "Amarelo Manga", o melhor filme brasileiro do ano passado); Paulo Caldas e Lírio Ferreira (de "Baile Perfumado"); Beto Brant (que dispensa apresentações), claro; os patronos Carlos Reichenbach e Ivan Cardoso; o superlativo Sergio Bianchi e pouquíssimos mais. São bodes na sala da corte do cinema tupiniquim "for export". Se você for assistir a apenas um filme brasileiro neste ano, assista a este. Nem que seja para ficar com raiva.
Fonte: Sérgio Dávila - Folha de S.Paulo 17/09/04
posted by Marfil at 9:49 AM
10.9.04
"Redentor" analisa a situação do Brasil em tom de farsa
.jpg) "Redentor", filme de Cláudio Torres que estréia na sexta-feira, oscila entre o drama, a comédia, a farsa, o suspense, o comentário sócio-político, mas nunca numa chave realista.
De muitas maneiras, não é um filme convencional. O primeiro filme de Torres -- que antes só dirigiu o episódio "Diabólica", do longa "Traição", em 1998 -- corre vários riscos, inclusive o de não ser assimilado por seu hibridismo.
"Redentor" propõe todos esses gêneros sempre um tom acima. Esse é seu mérito e o pecado pelo qual alguns vão apedrejá-lo.
Mesmo sem optar pelo tom realista, o enredo parte de uma situação real: uma família pequeno-burguesa, formada pelo casal Justo (Fernando Torres) e Isaura (Fernanda Montenegro) e o filho Célio Rocha (Pedro Cardoso), é destruída pela ganância de um megaempreendedor imobiliário (José Wilker), não por acaso criado à imagem e semelhança de Sérgio Naya.
Tal inspiração foi assumida há anos por Fernanda Torres, que desenvolveu o argumento inicial há seis anos e foi uma das três roteiristas, ao lado do irmão Cláudio Torres e da experiente Elena Soárez (de "Eu Tu Eles", outro da produtora Conspiração).
A partir dessa típica tragédia brasileira, o filme decola em várias direções. O jornalista Célio acaba traindo o próprio pai, corrompido pelo herdeiro do empreendedor, Otávio Sabóia (Miguel Falabella), e finalmente enlouquece com uma fantasia pseudo-religiosa.
Enquanto isso, peões de uma grande obra falida, também credores de Sabóia, decidem tomar os apartamentos inacabados com as próprias mãos. E os presidiários se tornam coadjuvantes na trama, com uma oportunidade para se resgatar o talento de atores como Lúcio Mauro, impecável no papel de Tísico.
Atuando em tantas chaves, às quais soma ainda o elemento mais surreal do Cristo Redentor descido do pedestal e falando direto com Célio, não admira que o filme cause perplexidade à primeira vista.
O espectador pode experimentar muitas vezes dificuldade de trafegar por tantos signos, ainda mais embalado na edição veloz e nos muitos efeitos especiais (ponto alto da produção).
Há quem enxergue no filme má-fé ou até coisa pior por não aliviar a mão no retrato de pobres e oprimidos -- que são vis em várias situações para defender seus interesses, tanto quanto os ricos e a classe média. E nisso, talvez, o filme apresenta seu traço mais realista.
Colocar a classe média no centro das atenções era um dos maiores interesses do cineasta. "Queria falar do caos social do Brasil, visto do ponto de vista dessa classe social", explica. Por isso escolheu um jornalista como o protagonista da história. "Esses profissionais são os verdadeiros heróis da classe média", exagera.
A geração de Cláudio Torres, que não viveu o Cinema Novo nem o amor pela revolução de esquerda, descrê da política e não cultiva a idealização da figura do povo -- e também não enxerga soluções.
Mas o cineasta não deixa de reservar na paleta de cores sombrias de seu filme um tom mais suave para a grandeza humana de figuras como as de seu Justo e do Tísico.
Vindos ambos de classes e situações de vida distintas, os dois são a pista de um amor pela humanidade, pelo homem como medida de todas as coisas, dos dilemas e suas superações, e que é a fresta mínima por onde a história respira.
"Redentor" é um filme ousado e corajoso. E se não pretende (felizmente) dar a última palavra sobre a questão social, a política e a impunidade no Brasil, também não deixa de apresentar elementos para reflexão sobre tudo isso, sob uma ótica nova.
Talvez leve algum tempo mais para digerir tudo o que o filme propõe e como propõe. Mas trata-se de uma saudável sacudida na mesmice, à procura de modernidade e originalidade.
Redentor custou cerca de 6,5 milhões de reais e levou cerca de 6 a 8 anos, desde a concepção da idéia até a finalização dos efeitos especiais, para ficar pronto. Foi produzido pela Conspiração Filmes, uma espécie de cooperativa fundada por um grupo de cineastas, entre eles Cláudio Torres e Andrucha Waddington.
Por Neusa Barbosa, do Cineweb
posted by Marfil at 9:24 AM
8.9.04
SPOILER ESPECIAL: Perspectivas OSCAR 2005
Para garantir TV,"Fahrenheit" pode mudar de categoria no Oscar
O diretor Michael Moore diz que está disposto a abrir mão de concorrer ao Oscar de melhor documentário com seu filme "Fahrenheit 9/11" a fim de que ele possa ser exibido na TV norte-americana antes das eleições presidenciais de 2 de novembro.
Segundo as regras do Oscar, os documentários exibidos nas TVs nos nove meses seguintes a sua estréia nos cinemas não podem concorrer ao prêmio.
Em uma mensagem colocada na segunda-feira em seu site, Moore disse que os distribuidores inscreveriam "Fahrenheit 9/11" para o prêmio de melhor filme e não para o de melhor documentário. Nenhum documentário jamais foi nomeado para concorrer ao Oscar de melhor filme.
Alguns especialistas na premiação especularam que manter "Fahrenheit 9/11", uma crítica feroz ao governo do presidente George W. Bush, fora da disputa por melhor documentário pode aumentar suas chances de ser nomeado para disputar o Oscar de melhor filme.
"Se houver a mais remota das chances de eu conseguir fazer com que esse filme seja visto por mais alguns milhões de norte-americanos antes do dia da eleição, então isso é mais importante para mim do que ganhar um outro Oscar de documentário", disse Moore.
O diretor afirmou que o distribuir da versão em DVD do filme, a ser lançada no dia 5 de outubro, seria provavelmente contrário à exibição dele na TV com medo de diminuir a penetração do produto no mercado.
Mas Moore disse continuar determinado a promover a estréia do documentário na TV antes da eleição de novembro, na esperança de que "Fahrenheit 9/11" contribua para a derrota de Bush.
O diretor ganhou o Oscar de melhor documentário em 2003 pelo filme "Tiros em Columbine".
posted by Marfil at 7:45 AM
3.9.04
"O Agente da Estação" cativa com amizades improváveis
.jpg) Um anão herda uma estação de trem em Nova Jersey e faz amizade com uma artista e um vendedor de cachorro-quente. Você vai sair correndo de casa para ver esse filme? Provavelmente não, mas é essa toda a magia dos longas exibidos em festivais de cinema.
Trabalhos que jamais caberiam em formatos comerciais ou que se baseiam em argumentos solitários constituem pedras preciosas que só poderiam ser garimpadas em lugares como Sundance.
"O Agente da Estação", que estréia em circuito comercial na sexta-feira, transcende qualquer sinopse. A história gira em torno do baixinho Finbar McBride (Peter Dinklage), mais conhecido pelas poucas pessoas que lhe são mais próximas como Fin.
Ele é alguém que resguarda sua privacidade a todo custo mas que, por conta de seu tamanho, constantemente se vê atraindo atenções indesejadas.
Diariamente Fin suporta as observações e piadas cruéis de estranhos. Na realidade, essas crueldades impessoais o levaram a isolar-se por trás de uma espécie de muralha de proteção, que o mantém a salvo do mundo externo.
A única paixão na vida de Fin é um prazer solitário: ele é fascinado por trens e trabalha numa oficina dedicada a eles. Quando o dono da loja morre, Fin se vê desempregado, mas beneficiário do testamento de seu antigo patrão. Ele herda uma pequena estação de trem na zona rural de Nova Jersey.
Fin deixa o santuário que era a oficina e parte para tentar isolar-se em seu novo mundo. Ele viaja até a estação de trem e se instala ali.
Dormindo no sofá e usando apenas as roupas que carrega em sua mala pequena, tudo o que ele quer é que lhe deixem em paz. Infelizmente, porém, mesmo no meio do campo há pessoas que vêm bater à sua porta.
Fin torna-se alvo de atenções de um amigável vendedor de cachorro-quente (Bobby Cannavale) que se afeiçoa a ele, como se fosse uma criança que encontrou um bicho de estimação.
Mas o bom humor amalucado do vendedor deixa Fin ainda mais irritado, e ele se isola ainda mais dentro de sua casca.
Mesmo quando caminha por uma estrada isolada no campo, não consegue fugir das pessoas: quase é atropelado por uma motorista ineficiente, a artista distraída Olivia (Patricia Clarkson), que se encontra sob o efeito do sofrimento provocado por uma separação conjugal. Os dois acabam virando amigos.
A narrativa, alimentada por acontecimentos pequenos e apoiada sobre necessidades humanas reais, magicamente vira uma história de amizade e apoio.
Fin acaba descobrindo que, para ser solitário, não é preciso suportar a solidão: que o alimento emocional garantido por amigos verdadeiros é o melhor sustento para uma pessoa que sente a necessidade de viver só.
A flexibilidade e sutileza com que o diretor Tom McCarthy desenrola a história são tão grandes que é apenas depois de assistir ao filme que você vai compreender sua lição de sabedoria.
Enquanto assistimos a ele, tudo o que nos interessa são os três amigos improváveis cuja amizade é ao mesmo tempo comovente e inspiradora.
Delicado e sutil, "O Agente da Estação" é um filme que inspira e anima, em grande medida graças à força de seus atores, o mais importante dos quais é Dinklage, que, no papel do anão solitário, deixa transparecer todo o lado sombrio do personagem.
Patricia Clarkson, como a artista problemática, colore sua performance com toda uma paleta de emoções conflitantes, mas compreensíveis. Cannavale é cativante como o vendedor ingênuo, um sujeito simples, mas dotado de coração de ouro.
As contribuições técnicas em nenhum momento ganham força maior do que o poder da própria história. Nada é exagerado; a simplicidade evoca seu poder considerável. A trilha sonora de Stephen Trask e a fotografia de Oliver Bokelberg conferem uma dimensão ainda maior a este filme cativante.
posted by Marfil at 9:02 AM
2.9.04
Distribuição de filme sobre o Iraque é cancelada
Warner Bros. afirma que a decisão é baseada em motivos políticos
A distribuidora Warner Brothers decidiu não lançar nos Estados Unidos o novo documentário antiguerra do diretor David O. Russell, considerando, nas palavras de uma porta-voz do estúdio, que seria "totalmente inadequado" distribuí-lo numa temporada tão marcada pela política.
Mas, ao mesmo tempo, a Warner planeja relançar agora, no outono americano, o filme de Russell sobre a primeira Guerra do Golfo, "Três Reis", de 1999, com George Clooney e Mark Whalberg. A idéia inicial era fazer um lançamento conjunto das duas obras.
Os executivos da Warner Brothers optaram pelo cancelamento essa semana, após terem visto o documentário finalizado, que inclui entrevistas com refugiados iraquianos e veteranos americanos da atual guerra no Iraque.
"O filme é um documentário que, basicamente, condena a guerra", segundo a porta-voz da Warner, Barbara Brogliatti. "A idéia para a temporada é lançar uma versão especial de 'Três Reis', e não a de criar polêmica sobre a guerra".
Ainda é incerto o destino comercial do documentário, que supostamente funcionaria como item extra no DVD e também seria exibido nos cinemas. Mas a Warner, que havia adiantado o orçamento do documentário (U$ 180 mil- equivalente a R$ 540 mil), informou que estaria inclinada a devolver os direitos de distribuição a David O. Russell. O diretor do documentário, antecipando a decisão da Warner, já havia dito que provavelmente tentaria distribuí-lo de forma independente.
"Foi decididamente uma surpresa e uma decepção", disse Russell numa entrevista nessa terça. "Mas eles estão sendo muito gentis e irão me devolver os direitos".
A decisão da Warner indica que grandes grupos de mídia estão com hipersensibilidade contrária a filmes que possam ser considerados tendenciosos. A Sony, por exemplo, recentemente decidiu se afastar de uma negociação para distribuir o DVD de "The Control Room", um documentário sobre a Al-Jazeera, o canal árabe de notícias. Esse documentário será lançado pela Lions Gate, distribuidora independente do Canadá.
Em 2004 a Walt Disney Company já esteve envolta numa controvérsia cultural, ao recusar a distribuição do documentário anti-Bush de Michael Moore, "Fahrenheit 11 de Setembro", alegando que a obra era excessivamente política. O documentário se tornou um sucesso mundial, e esse episódio aprofundou uma cisão entre a empresa e os executivos de uma importante unidade de produção da Disney, a Miramax, que apoiaram o lançamento do filme.
Ao antecipar que deverá dar a Russell os direitos do novo documentário, a Warner Brothers parece querer se livrar de uma controvérsia parecida com a da Disney. Só que, ao contrário do filme de Moore, o documentário de Russell não apóia nem sequer menciona nenhum dos candidatos à presidência.
O diretor Russell diz que não entendeu direito a objeção política ao filme: "O argumento era de que, sim, Saddam foi horrível", diz o diretor, que tem, entre outros filmes, "Procurando Encrenca" (Flirting with Disaster) e o próximo "I Love Huckabees", além de "Três Reis".
"Várias pessoas, meus amigos iraquianos, dizem no documentário que apoiaram a guerra. Há também o ativista de direitos humanos dizendo 'ainda bem que Saddam foi embora', mas afirmando que não tem certeza de que o mundo está melhor com essa guerra".
Mas os executivos da Warner dizem que o documentário não era bem o que Russell prometera como material adicional para o relançamento de "Três Reis". Eles argumentam que esperavam histórias ou atualizações do tipo "o que aconteceu...", com figurantes e consultores que participaram do filme de 1999. Uma delas seria a história de um refugiado político que voltou ao Iraque para atuar na clandestinidade política.
"E não foi isso o que apareceu no documentário", disse a porta-voz Brogliatti. Numa entrevista a Spoiler no mês passado, Russell explicou por que realizou o documentário: "Eu pensei que poderia trazer um diferencial antes da eleição, ao mostrar ao público a situação que ocorre por lá --como os iraquianos queriam se livrar de Saddam, mas também revelando os efeitos da guerra sobre uma população".
Ao saber dessas intenções, a Warner Brothers consultou seus advogados sobre a possibilidade do documentário estar infringindo regras da Comissão Eleitoral Federal ou mesmo se o lançamento corria o risco de se caracterizar como contribuição financeira indireta à campanha política. Embora o parecer jurídico fosse considerado pouco claro, a Warner mesmo assim decidiu não lançar no período eleitoral um filme que poderia ser considerado tendencioso.
Segundo executivos da Warner Brothers, o presidente da empresa, Alan Horn, um Democrata militante, quis evitar a sensação de que ele poderia estar utilizando os estúdios para apoiar suas próprias convicções políticas. A porta-voz Brogliatti disse que o diretor Russell ainda tentaria apresentar outro material adicional que tivesse mais conexões com seu longa de ficção.
Se ele conseguir, segundo a porta-voz, o estúdio manteria o projeto de relançar "Três Reis" em DVD e também numa dúzia de cinemas, provavelmente no próximo mês.
Russell garantiu que ainda tentará lançar seu novo documentário sobre a Guerra antes da eleição, possivelmente por meio da organização autônoma Moveon.org, que já apoiou outros documentários políticos esse ano, inclusive "Outfoxed", que critica o jornalismo conservador do canal Fox News.
"Três Reis" é uma comédia de humor Negro estrelada por George Clooney. O filme conta a história de quatro soldados que se lançam numa ofensiva para descobrir o tesouro escondido de Saddam Hussein, após a guerra no Golfo Pérsico em 1991. No caminho eles encontram rebeldes xiitas e refugiados que combatem o exército de Saddam, atendendo à conclamação do presidente George Bush, o pai. Os soldados, com Clooney à frente, acabam abandonando o tesouro e ajudando a fuga dos refugiados.
Fonte: Sharon Waxman - The New York Times 02/09/04
posted by Marfil at 9:46 AM
1.9.04
Um conto budista na tela do coreano Kim Ki-duk
O diretor do polêmico A Ilha fala do seu novo trabalho, um conto budista sobre as quatro estações: Primavera, Verão, Outono, Inverno ...e Primavera
.jpg) Em apenas oito anos de carreira - iniciada em 1996, com Crocodilo -, o coreano Kim Ki-duk realizou 12 filmes que lhe valeram excelente reputação em seu país e o transformaram em ponta de lança do cinema da Coréia no mercado internacional. O longa mais recente do diretor de 44 anos, A Samaritana, passou no Festival de Berlim, em fevereiro. O anterior, Primavera, Verão, Outono, Inverno ...e Primavera, estréia hoje nos cinemas da cidade. É um belíssimo filme de inspiração budista, sobre um discípulo que toma lições de vida com seu mestre e aprende que o importante não é a duração da existência, mas o peso. Há coisas que são mais importantes para cada um de nós. As paixões terrenas possuem um peso e atiram o homem para baixo, mas Kim Ki-duk não acredita no homem nascido para o mal e a perversão. "Todos temos nossos demônios e também nossos anjos", diz o diretor, que teve formação protestante, flertou com o cristianismo e chegou ao budismo, mas diz que poderia ser também judeu ou muçulmano. Os princípios de todas as religiões se parecem, afirma Ki-duk, e quando os homens se derem conta disso um grande passo será dado no rumo do entendimento universal.
Kim Ki-duk encontrou-se com o repórter do Estado durante o Festival de Berlim. Ele fala inglês, mas não dispensou um intérprete para também responder às perguntas em coreano. Contou histórias esclarecedoras. Filho de um camponês que ficou incapacitado na Guerra da Coréia, criou-se numa família em que a figura forte era a da mãe. Conheceu o cinema bem tarde, no começo dos anos 1990, quando viajou à França para encontrar-se com amigos que estudavam pintura em Montpellier. Resolveu que também queria ser pintor e freqüentou aulas numa academia francesa. Em 1992-93, viu os três primeiros filmes de sua vida - Os Amantes de Pont-Neuf, de Léos Carax; O Amante, de Jean-Jacques Annaud; e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. Ficou tão impressionado que resolveu escrever um roteiro, que terminou virando seu primeiro filme, feito somente em 1996.
Há um elemento de violência que percorre o cinema de Kim Ki-duk e se faz presente desde um de seus primeiros filmes, Endereço Desconhecido (Unknown Address), sendo mesclado a um erotismo intenso no filme mais radical do diretor - A Ilha. Você deve se lembrar do impacto que o filme causou no Festival de Veneza e, depois, na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, com sua história da prostituta que atende uma comunidade de pecadores. Numa cena particularmente polêmica, ela rasga o próprio clitóris com um anzol.
Comparativamente, o clima de Primavera, Verão, Outono, Inverno ...e Primavera é mais compassivo e suave. O discípulo aprende que a importante na vida é o espírito e não a matéria, por mais que seja perturbado pela experiência do amor de uma mulher. Garoto, ele escala um rochedo para ver a jovem nua e é arremessado - pelo peso metafórico das coisas - para o fundo do mar. O clima é igualmente brando em Samaritan Girl, em que o diretor trata de prostituição juvenil, mas as cenas de sexo da estudante são quase inexistentes. "É um filme sobre relacionamentos, sobre perdão, não sobre sexo", explicou Ki-duk.
Se a experiência budista do filme que estréia hoje libertou o diretor em A Samaritana - e você poderá confirmar isso quando o filme passar na mostra, em outubro -, o conto das quatro estações do autor (Primavera, Verão, Outono. Inverno ...e Primavera) tem um templo com aberturas para todos os lados - norte, sul, leste, oeste -, que se transforma em representação do próprio ciclo das estações. Até por causa delas, é um filme sobre o tempo e sobre o difícil aprendizado que pode conduzir as pessoas à maturidade.
posted by Marfil at 9:24 AM
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